Sintra/Índia

Cultura indiana em destaque
no Museu de Arte Moderna

Foi inaugurada no dia 23 de Outubro a nova exposição do Museu de Arte Moderna, em Sintra, intitulada “Índia – Mito, Sensualidade e Ficção”, que estará patente até 2010. O Jornal de Sintra falou com a curadora da mostra.


A exposição mostra a evolução do “pai” da Índia


A exposição parte de registos biográficos de várias figuras-chave indianas, que foram elementos integrantes do processo evolutivo de um país considerado exótico pelos ocidentais, e mostra o lado mítico, sensual e ficcional da cultura desse país desvendando, nunca por completo, o seu lado misterioso. Contando com a presença de diversas personalidades, de entre as quais a embaixadora indiana, Joe Berardo, vários artistas indianos e Cristina Carrillo Albornoz, curadora da exposição, a abertura desta mostra tripartida realizou-se num ambiente intimista, onde prevaleceram as cores e os sabores indianos. De facto, “Índia – Mito, Sensualidade e Ficção”, que estará patente até 11 de Abril do próximo ano, concentrou no espaço do Museu de Arte Moderna – Colecção Berardo, os principais aspectos e individualidades da cultura indiana.

“Hoje é um dia muito especial, porque vamos prestar uma homenagem muito importante”, ressaltou Joe Berardo no seu discurso, apontando a história de Gandhi como sendo um dos ex-líbris da mostra.





A inauguração foi além da mera abertura de uma exposição e atraíram os olhares não só os quadros e esculturas, como também Lajja Sambhavnath, que protagonizou um momento de dança ao vivo, o grupo de música indiana Fidu’s e as tatuagens de hera, delicadamente trabalhadas na pele das visitantes que se interessassem por fazê-las. A par de tudo isso, alguns acepipes indianos, devidamente condimentados, trouxeram a Sintra os traços de um país longínquo.





Cristina Carrillo Albornoz, curadora da exposição


Exposição tripartida começou com “pai” da Índia
Apesar de tudo ter partido da ideia de se realizar uma mostra sobre Gandhi, segundo contou ao Jornal de Sintra Cristina Carrillo Albornoz, o trabalho acabou por levar a um conjunto muito mais complexo que deu origem a uma exposição dividida em três partes.

O grupo expositivo correspondente a Gandhi, integrado no tema “A minha vida é a minha mensagem”, tem como base 60 fotografias, escolhidas de entre as 25 mil fotografias pertencentes ao seu sobrinho, Kanu Gandhi, e ao seu biógrafo, Vithalbhaik K. Jhaveri de Mumbai. “As fotografias estavam em muito mau estado, mas nós recuperámo-las e digitalizámos tudo. A selecção foi feita com base na evolução de Gandhi, do advogado e gentleman inglês até ao homem que se tornou pobre”, explicou a curadora da exposição.

Desta forma, estão presentes vários aspectos da vida do chamado “pai” da nação indiana, as suas ideias e valores, as causas que defendeu – a verdade, a resistência passiva ou Satyagraha, o vegetarianismo, a renúncia aos bens materiais, entre outros – sob a forma de fotografias, textos originais, citações e uma selecção de documentários, um dos quais realizado pelo norte-americano Spike Lee e uma gravação, a única em que se consegue ouvir a sua voz, assim como cartas escritas por si para personalidades conhecidas como Tolstoi e Hitler.

Cristina Carrillo Albornoz conta que demorou um ano a juntar toda a informação sobre Gandhi e que fazer a selecção das fotografias foi um “pesadelo”. “Quando reduzi para mil as 25 mil fotografias, todas me pareciam bonitas; aliás, Gandhi era muito bonito, conhecia o poder da comunicação e foi um grande modelo, demonstrando em cada uma das fotografias uma grande força”.


Uma família de artistas indianos
Três gerações de uma família de artistas fazem também parte da mostra, com os trabalhos de Umrao Singh Sher- Gil, considerado o fundador da fotografia contemporânea da Índia, Amrita Sher-Gil, filha de Umrao, figura-chave da arte moderna e considerada a Frida Kahlo indiana, Vivan Sundaram, sobrinho de Amrita e autor de várias fotomontagens sobre a sua família e Navina Sundaram, irmã de Vivan e jornalista, historiadora e realizadora.

Assim, os surpreendentes auto-retratos e fotografias de família da autoria de Umrao foram estudados por Vivan Sundaram durante 20 anos, dando origem ao “Re-take Amrita”, agora pertencente à Colecção Berardo, constituído por uma série de 57 fotomontagens, expostas pela primeira vez na totalidade através do filme “Amrita Sher-Gil: A Family Album”, de Navina Sundaram. A exposição mostra também três dos quadros de Amrita, “que são um símbolo do que ela foi e representam todos os outros quadros”, obtido pela curadora depois de muito esforço. “Era quase impossível trazer os quadros de Amrita da Índia” uma vez que quando a artista morreu, tragicamente, com 28 anos de idade, “os pais decidiram doar ao estado indiano as suas cerca de 30 pinturas a óleo, o que deu origem à fundação da Galeria Nacional de Arte Moderna em Nova Deli”, sendo por isso quadros “considerados como tesouro nacional”.

Assim, os três que estão patentes na exposição foram obtidos através de Navina Sundaram, que reside na Alemanha.

Para além disso, a mostra inclui ainda mais dois vídeos seus, “Turning” (2007) e “Flotage” (2007), assim como fotografias da série “Trash”, em que Vivan Sundaram retrata o mundo industrial, massificado e colorido ao protagonizar na sua obra o lixo produzido e também algumas formas de reciclagem, como a reutilização de garrafas vazias para se fazerem jangadas. “Vivan Sundaram questiona sobre o que é o lixo. A resposta é que o lixo depende das pessoas” e do que elas fazem com ele, sublinhou Cristina Albornoz.


Uma Índia mítica e religiosa

O terceiro grupo expositivo, cujas obras fazem parte do acervo da Colecção Berardo, é constituído por antiguidades decorativas, referências ao imaginário popular e religioso Hindu através de estatuetas e relevos em madeira e uma série de fotografias inéditas de Juan Bécquer, tiradas nos anos 50 e 60.

Uma exposição para reflectir
A exposição que, segundo a curadora, poderá ser também inaugurada em Barcelona, é um convite à reflexão. “Para mim, a principal mensagem é a de que num mundo como o de hoje, em que tudo é material, o que Gandhi nos diz é que temos de nos encontrar e encontrar a liberdade, não as coisas materiais”, ressaltou Cristina Albornoz. Quanto à vertente cultural, a curadora aponta para as obras expostas : “os visitantes devem vir para se aperceberem de que a Índia tem um grande potencial em termos artísticos e tem artistas fantásticos”.


Pedro Aguilar, curador do Museu de Arte Moderna

Ateliês sobre o modo de vida e o paladar
A par da exposição, serão realizados ateliês de expressão plásticas partindo de elementos da mostra. Assim, através de marcação, o público (a partir dos 3 anos) terá a oportunidade de visitar a exposição de forma adequada à sua idade e poderá reproduzir, em ateliês, os sandesh (bolinhos de queijo), com formas variadas. Mais informações: 219 248 170.


Fotografias: Ricardo Graça
Texto: Vanessa Sena Sousa

4 comentários:

Anónimo disse...
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