Rio de Mouro


Carta aberta ao pároco de Rio de Mouro

Transcreve-se, a pedido do subscritor, a carta aberta endereçada ao reverendo de Rio de Mouro.
Excelentíssimo senhor Padre: Acontecimentos recentes deixam-me receoso quanto ao futuro da nossa comunidade e quanto ao futuro do diálogo, que se pretende frutuoso, entre a sociedade e a já antiga, venerada e venerável Igreja Católica. Temos um facto e uma moral, à boa maneira das estórias para crianças. Passemos ao facto.

Há relativamente pouco tempo, a Dínamo, associação de dinamização sociocultural da freguesia de Rio de Mouro, fez chegar a sua excelência um pedido para a utilização do único sítio de reunião – sublinho: único – em toda a freguesia que tem mais de 100 lugares (os outros oscilam entre os 50 e os 60 lugares) para aí realizar um debate entre os vários candidatos à junta de freguesia de Rio de Mouro. O sítio mencionado é, como sabe, o auditório da Igreja de Rio de Mouro. Ora, sua excelência, fazendo uso das prerrogativas típicas de qualquer proprietário, achou por bem pedir a quantia de 700 euros para a utilização do referido auditório.

Tendo em linha de conta que estamos em tempo de crise – não só económica mas também de ensino – é sempre saudável este tipo de acontecimentos para nos exercitarmos na disciplina tão mal tratada no nosso país que é a matemática. Ora, fazendo as contas, e se o referido debate durar duas horas, o aluguer do espaço sairá a, aproximadamente – perdoe-me porque também eu, como qualquer bom português, percebo pouco de matemática – seis euros por minuto e quatro euros caso dure três horas. Convenhamos que o minuto está um pouco caro. A Dínamo, como sua excelência sabe ou devia saber, é uma associação sem fins lucrativos composta maioritariamente por jovens. Não é, certamente, uma associação católica – quando o nosso clube joga é sempre mais fácil apoiar – mas decerto que encontrará no seu seio muitos católicos, apesar da descrença que assola as sociedades contemporâneas – e seria bom analisar as causas desta descrença. Como qualquer boa associação sem fins lucrativos a Dínamo – hélas! – não tem uma conta bancária que lhe permita suportar gastos tão longe da sua capacidade financeira. Está como o Estado Português: não abre falência mas, para citar um grande apoiante da causa católica, não dá almoços grátis (é a vida, diria, citando outro e este, por acaso, até ex-primeiro ministro). Como sua excelência sabe, ou não devia ser muito difícil imaginar, pedir 700 euros a uma associação sem fins lucrativos para o aluguer de um espaço é o equivalente a negar-lhe o referido espaço. Compreendo que o argumento financeiro não surta muito efeito junto de sua excelência – lá dizia o poeta, esse por acaso nada católico, que não consta que Cristo percebesse de finanças – mas nós, pobre associação tresmalhada, somos obrigados a pensar em pormenores comezinhos. Mas perceba também sua excelência a ironia contida na sua posição. As invectivas que a Igreja lança contra aqueles que perseguem o dinheiro pelo dinheiro coadunam-se pouco com uma política que permite que apenas aqueles com dinheiro possam alugar o auditório da Igreja. Caso fôssemos uma associação de empresários abastados teríamos capacidade para alugar. Como somos uma pequena associação de dinamização sociocultural – ainda por cima formada por jovens – não podemos. Repito: é a vida.

O referido espaço não era, como sua excelência sabe, para organizar algo que dissesse respeito à Dínamo. Nem era, certamente, para brincarmos. Nem para jogar cartas. Nem, igualmente, para discutirmos assuntos que não dissessem respeito à comunidade – onde, talvez seja preciso relembrar sua excelência, se situa a Igreja da qual é padre. Era, pasme-se, para juntar os candidatos à Junta de Freguesia para que a comunidade – a de Rio de Mouro, não a do Cacém nem a de Mem-Martins – pudesse, pela primeira vez em 35 anos de democracia, ouvir na freguesia os candidatos à freguesia falarem sobre a freguesia. Sua excelência, não ligando ao poder temporal, refugia-se no poder espiritual e pede 700 euros. Ficamos assim a saber quanto custa o poder espiritual: 700 euros – porque, parece, a crise não assola somente o mundo profano e também o espiritual tem de baixar o preço. Estes são os factos: um padre, uma associação, um auditório e um debate que esteve quase para não se realizar, não fosse a capacidade de movimentação da referida associação tresmalhada e pelo que parece, nada católica. Passemos então à moral.

Como sua excelência sabe, o Concílio Vaticano II constituiu uma abertura da Igreja ao mundo e, em especial, à democracia, duramente atacada durante largos anos. É de louvar, aliás, toda a acção que ela tem tido e que segue a sua vocação original de Igreja virada para a comunidade de crentes – acção meritória no domínio, por exemplo, do combate à pobreza. A Igreja acredita que, para citar outro poeta – e este talvez citado de forma mais rigorosa –, a verdadeira vida está ausente. Mas isso não a impede, antes pelo contrário, de seguir os exemplos históricos em que a sua inserção no mundo foi sublinhada – a ordem franciscana é um desses exemplos e, parece-me, um dos quais a Igreja mais se deve orgulhar. Estar inserido no mundo significa que há um legado ético que a Igreja deve defender, e deve defendê-lo intransigentemente. Mas deve fazêlo sabendo que está sempre situada a nível histórico e espacial e reconhecer a natural divergência que os homens – que não são santos nem anjos nem contemplam as verdades criadas pelo verbo divino – têm uns para com os outros. É reconhecer que o homem é por natureza político.

Ora, ou sua excelência acha que o auditório da Igreja é inadequado para a discussão de assuntos políticos – mas não se esqueça que muitas vezes fazemos política inclusive quando a negamos – ou então acha que a receptividade da comunidade não é suficientemente representativa para ser feita no maior espaço da freguesia. Uma equivale a ignorar o facto de que a política é uma componente essencial do mundo contemporâneo. Outra, mais grave, equivale a não acreditar na democracia enquanto regime. Ambas, no entanto, redundam num autismo que vai contra o espírito dialogal que a Igreja tem vindo a ter nos últimos decénios.

Sua excelência presta um mau serviço ao legado da Igreja quando impõe preços incomportáveis a uma associação cujo único intuito é ajudar a comunidade, coisa que, pelo que me parece, sua excelência também devia fazer. Sua excelência presta um mau serviço porque a Igreja não deve ser autista. Porque a Igreja não se deve alienar da sua vocação de serviço à comunidade. E impedir ou tentar impedir, mesmo que indirectamente e possivelmente sem consciência, equivale a demitirse da tarefa de debater o futuro da nossa freguesia. Num mundo onde a participação política se reduz a níveis assustadores, num mundo onde a juventude, por razões várias, se mostra muitas vezes indiferente ao futuro (é um lugar comum, apesar de não concordar com a afirmação), o dever da Igreja é tomar posições activas na defesa de associações como a Dínamo e de actividades como aquela que a referida associação se prontificou a organizar no auditório.

É pelo respeito que a instituição que representa merece, é pelo respeito que o seu lugar merece, que lhe escrevo.


Respeitosamente, João Duarte/Rio de Mouro (devidamente identificado)

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